Com o aumento expressivo no número de diagnósticos de Transtorno do Espectro Autista (TEA), cresce também a urgência de políticas públicas que garantam a inclusão dessa população em todos os espaços da sociedade — inclusive e, especialmente, no mercado de trabalho. Nesta semana, a discussão chegou ao plenário, com a proposta de um novo programa municipal para inclusão de autistas em empresas, apresentado pelo vereador Daniel Carvalho, reacendendo um debate fundamental: como garantir que as oportunidades sejam, de fato, acessíveis e respeitem as particularidades de cada indivíduo?
A realidade ainda é desafiadora. Dados internacionais mostram que apenas 29% dos adultos autistas estão empregados no Reino Unido. Nos Estados Unidos e Austrália, a taxa sobe para 38%, mas ainda revela uma grande lacuna quando comparada à população em geral.
No Brasil, os números são ainda mais preocupantes: segundo estimativas do IBGE cruzadas com dados de estudos recentes, menos de 1% das pessoas com TEA em idade produtiva estão formalmente empregadas. Isso reforça a invisibilidade social e econômica enfrentada por essa população e escancara o quanto ainda precisamos avançar em termos de inclusão efetiva.
Os desafios são diversos e muitas vezes estruturais. Pessoas com TEA enfrentam barreiras que vão além da contratação em si. Dificuldades de comunicação, sensibilidades sensoriais e resistência a mudanças no ambiente são aspectos que impactam diretamente na adaptação e permanência no trabalho. A falta de compreensão desses aspectos agrava o risco de exclusão e discriminação.
Apesar disso, exemplos ao redor do mundo provam que a inclusão é não só possível, como transformadora. Um deles é o PizzAut, uma pizzaria na Itália que funciona 100% com colaboradores autistas. Mais do que um restaurante, o PizzAut é um laboratório de autonomia e dignidade, onde jovens autistas são treinados, acompanhados e inseridos em um ambiente que respeita suas particularidades. Com duas unidades já em funcionamento — uma delas inaugurada pelo próprio Presidente da Itália — o projeto tem conquistado reconhecimento internacional por provar que pessoas com TEA, quando acolhidas e estimuladas, são plenamente capazes de atuar com excelência no mercado de trabalho.
A escolha da pizza, alimento simples e acessível, é simbólica: representa a união de pessoas em torno da mesa e reforça a ideia de que a inclusão pode e deve ser parte do nosso dia a dia. Por trás da cozinha e do atendimento, há histórias de superação, aprendizado e empoderamento, que inspiram o mundo e oferecem um modelo de inclusão que o Brasil pode — e deve — adaptar à sua realidade.
É exatamente com esse espírito que o projeto apresentado por Daniel Carvalho busca construir, em Contagem, um caminho semelhante: promover parcerias com empresas locais para a inclusão de pessoas autistas no mercado de trabalho, através de incentivo, capacitação e suporte adequado. “Não se trata apenas de contratar. Trata-se de preparar o ambiente, sensibilizar gestores e reconhecer talentos que, muitas vezes, foram invisibilizados”, destaca o parlamentar.
Diante disso, o papel das empresas de Contagem vai muito além da contratação. É necessário investir em ambientes acolhedores, políticas permanentes de inclusão e treinamentos que garantam compreensão e respeito às especificidades do espectro autista.
A inclusão, quando feita com responsabilidade e sensibilidade, transforma. Transforma vidas, transforma empresas, e pode — como o PizzAut — transformar também a imagem de uma cidade que escolhe caminhar rumo à dignidade, à empatia e à justiça social.